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Porto Velho, RO - No quinto álbum de inéditas, Corações Amazônicos, Os Últimos apresentam um trabalho que articula música, território e posicionamento político em um disco intenso, plural e profundamente conectado ao tempo presente. Entre o afeto e a crítica social, o álbum constrói uma narrativa que parte da Amazônia para refletir sobre o Brasil e o mundo contemporâneo.
A abertura com “Abraço Bom” estabelece imediatamente o tom afetivo da escuta. A canção se apresenta como um gesto de cuidado em meio ao caos e tem a participação do rapper Fábio FDois.
Em “De Pé na Via Láctea”, o disco amplia seu campo de reflexão. A letra desloca o ouvinte do chão amazônico para o cosmos, relativizando egos, fronteiras e certezas. Ao conectar o micro ao macro, a faixa reafirma que pensar o território é, inevitavelmente, pensar o planeta.
A crítica social ganha corpo e urgência em “Vanguarda do Atraso”, talvez o momento mais incisivo do álbum. Aqui, Os Últimos abandonam qualquer conforto estético para denunciar um Brasil marcado pelo tecno-feudalismo, pela exploração da fé, pela devastação ambiental e pela violência institucionalizada. A canção sintetiza um país preso a um projeto de poder arcaico, travestido de progresso. É uma faixa que dói e precisa doer.
Esse olhar crítico também atravessa “Sulamericano”, que articula identidade, exaustão e sobrevivência. Ao mesmo tempo confessional e coletiva, a canção reflete o cansaço de uma geração inteira, convertendo a experiência individual em sentimento compartilhado.
Em contraste, “Ideia Louca” traz leveza sem superficialidade. A música revisita memórias, desencontros e ironias do tempo, transformando o passado em matéria de aprendizado e desejo. Trata-se de uma canção de amor madura, consciente das marcas deixadas pelo tempo, mas ainda aberta ao presente. O disco reafirma, nesse ponto, sua capacidade de transitar entre o político e o íntimo sem perder coesão.
A dimensão corporal e dançante surge com força em “D.A.N.C.E.”, faixa que assume o inglês, o humor e a simplicidade como estratégia. Dançar, aqui, não é fuga, mas resistência. Em um álbum atravessado por denúncias, o convite ao movimento do corpo funciona como válvula de escape e afirmação de vida.
Já “Brazil” aposta na ironia para desmontar estereótipos internacionais sobre o país. Com sarcasmo e refrões diretos, a banda confronta clichês e reafirma uma identidade brasileira plural, contraditória e pulsante. O uso do inglês amplia o alcance da crítica e evidencia o absurdo das narrativas simplificadoras sobre o Sul Global.
“Sol Pra Tanta Solidão”, uma das letras mais poéticas do disco, é composição de Marcos Biesek, artista amazônico que já teve a canção “Oblíquo” gravada pelos Últimos. Delicada e contemplativa, a faixa desacelera o álbum e oferece um contraponto necessário à sua aspereza política. De Biesek é também “Cachoeira Pequena”, canção que reverencia as paisagens de Guajará-Mirim, cidade onde o compositor já viveu. Nela, amor e pertencimento se misturam à perda ambiental, reforçando uma das ideias centrais do disco: quando a floresta desaparece, algo dentro de nós também se perde.
A faixa-título, “Corações Amazônicos”, encerra o álbum e sintetiza seu conceito ao denunciar a devastação ambiental e a mercantilização da vida, ao mesmo tempo em que afirma a força humana e ancestral do território amazônico.
Do ponto de vista musical e técnico, Corações Amazônicos é um trabalho sólido e consistente. A produção equilibra peso e sensibilidade, enquanto as participações vocais e instrumentais ampliam o espectro sonoro sem diluir a identidade da banda. A arte visual e o conceito geral reforçam a integração entre música, território e discurso.
Corações Amazônicos não é um disco fácil e não pretende ser. É um álbum que abraça, denúncia, dança e sangra. Um trabalho que transforma indignação em canção e afeto em ferramenta política. Os Últimos não falam sobre a Amazônia: falam a partir dela, com o coração apontado para o norte e os pés fincados na urgência do agora.


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