
Entre a memória dos golpes passados e a instrumentalização política do presente, o risco de se perder a essência da democracia - Imagem Ilustrativa
Porto Velho, RO - Durante anos, sempre no fim de março publiquei e dediquei um artigo escrito ou falado pelo rádio alertando sobre os excessos do golpe perpetrado por militares no dia 01 de abril, convenientemente puxado para um dia antes fugindo do Dia da Mentira e com a denominação palatável de revolução em vez de golpe de estado. A razão era para não nos esquecermos de que o poder emana do povo e não de grupos, governo ou partidos.
O tempo passou e de repente a república brasileira avançou a passos largos para o autoritarismo com o viés de esquerda, com a corrupção e o populismo formando a base para algo que se sentia, ainda que ocorrendo sutilmente, como a forte correnteza no fundo do rio que se esconde na aparente calma da lâmina superior. Chegamos ao 8 de janeiro de 2023 passando por outros momentos parecidos, mais organizados e até com maior impacto em termos de violência, mas muito longe da força expressiva dos atos de vandalismo de 8 de janeiro de 2023 que convenhamos, foram um ataque inaceitável às instituições e ao patrimônio público. Não há relativização possível para a depredação nos Três Poderes, nem para a violência ocorrida naquele dia.
A resposta do Estado era necessária, mas aqui começa a questão, quando as narrativas centraram na defesa da democracia e num crescendo assustador deu lugar a um discutível processo com verniz de legalidade à exploração política vergonhosa e indecente do episódio, lamentável pelos resultados, sob qualquer ótica.
A partir daí o governo federal adotou uma narrativa rígida, quase dogmática, para transformar o 8 de janeiro num marco absoluto do “bem contra o mal” e tudo passou a ser enfeixado nas mãos do juízo de terceiro grau quando deveria ser no juízo de primeiro grau e a girar em torno da tese de uma “tentativa de golpe contra o estado democrático de direito” plenamente estruturado, como se os acontecimentos não comportassem gradações, falhas institucionais ou responsabilidades comuns e compartilhadas. A complexidade dos fatos foi sumariamente dispensada das necessárias análises e sacrificada em nome de uma versão politicamente funcional criada pelo STF, um caldo para a escalada de monstros jurídicos impossíveis de existirem na lei.
Essa leitura oficial tem servido para algo além da punição de crimes: tornou-se instrumento de poder. Ao enquadrar todos os envolvidos como integrantes de um mesmo projeto golpista, o governo diluiu o princípio da responsabilidade individual e normalizou punições que muitas vezes são mais exemplares do que justas. É aqui que tenho de voltar no tempo em que me dedicava a combater o golpe de 1964 em artigos e editoriais. Em uma democracia madura, o clamor por respostas não pode atropelar garantias fundamentais explicitadas no art. 5º da Carta Magna, no arcabouço jurídico, nas leis, jurisprudências e muito menos substituir provas por narrativas. Sabem disso o povo, o Congresso, os militares e claro, como não poderia deixar de ser, o STF.
Mais grave ainda é o silêncio conveniente sobre as falhas do próprio Estado. Como explicar a inoperância dos sistemas de inteligência? Onde estavam as autoridades responsáveis pela segurança da capital? Onde foram parar as imagens das câmaras do bunker do senhor Dino? Onde está a explicação do presidente da República e auxiliares diretos como o General G.Dias? Tais perguntas raramente aparecem com destaque no discurso oficial pois o governo prefere a narrativa confortável dos fatos, onde o erro foi externo e não institucional e assim, hoje, sem povo nas ruas, os arremedos de festa cívica vencida por bastiões togados da democracia irão ocorrer em algumas cidades e recintos fechados pelos heróis do nada absoluto.
O 8 de janeiro também passou a ser usado como arma retórica contra adversários políticos. Críticas legítimas ao governo são frequentemente associadas, de forma oportunista, aos atos de vandalismo. Cria-se um ambiente em que discordar é suspeito, questionar é perigoso e o debate público se empobrece. Democracias não se fortalecem com intimidação moral, prisões injustas e censura, mas com pluralidade e confronto aberto de ideias. A defesa da democracia exige firmeza, mas também exige honestidade intelectual. Transformar o 8 de janeiro em um símbolo político permanente pode render dividendos no curto prazo, mas cobra um preço alto: o enfraquecimento do Estado de Direito e a corrosão do debate público. Quando o governo escolhe a narrativa em vez da verdade completa, não protege a democracia — apenas a instrumentaliza.
Fonte:
Leo Ladeia, 08 de janeiro de 2026


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