DNA antigo resolve o mistério da primeira pandemia do mundo. Créditos: depositphotos.com / Starshaker
Porto Velho, RO - Por primeira vez, pesquisadores descobriram evidências genômicas diretas da bactéria responsável pela Peste de Justiniano, reconhecida como a primeira pandemia registrada no mundo.
Esta descoberta histórica foi liderada por uma equipe interdisciplinar da Universidade do Sul da Florida e da Universidade Atlântica da Florida, com colaboradores da Índia e Austrália.
Eles identificaram a Yersinia pestis, o microrganismo causador da peste, em uma sepultura coletiva na antiga cidade de Jerash, na Jordânia, próximo ao epicentro da pandemia.
Este achado crucial liga definitivamente o patógeno à Peste de Justiniano, que marcou a primeira pandemia entre AD 541 e 750, resolvendo um dos mistérios históricos mais antigos.
Por séculos, os historiadores debateram sobre o que causou esse surto devastador que tirou a vida de milhões, remodelou o Império Bizantino e alterou o curso da civilização ocidental.
Embora houvesse evidências circunstanciais, a prova direta do microrganismo responsável permanecia inalcançável – um elo perdido na história das pandemias.
Dois artigos recentemente publicados pelas universidades mencionadas oferecem estas respostas tão aguardadas, proporcionando novos insights sobre um dos episódios mais significativos da história humana.
Ademais, a descoberta ressalta a relevância contínua da peste nos dias atuais: embora rara, a Y. pestis continua a circular globalmente.
O que foi a Peste de Justiniano?
A Peste de Justiniano apareceu pela primeira vez no registro histórico em Pelúsio (atual Tell el-Farama entre 541 e 544 dc), no Egito, antes de se espalhar por todo o Império Romano do Oriente, ou Bizantino.
Ainda que traços da Y. pestis tivessem sido recuperados a milhares de quilômetros de distância em pequenas aldeias da Europa Ocidental, nunca se encontrou evidência dentro do próprio império ou próximo do coração da pandemia até recentemente.
Utilizando técnicas direcionadas de DNA antigo, pesquisadores conseguiram recuperar e sequenciar material genético a partir de oito dentes humanos escavados em câmaras funerárias sob o antigo hipódromo romano em Jerash, uma cidade a apenas 200 milhas da antiga Pelúsio.
A arena havia sido reaproveitada como sepultura em massa entre meados do século VI e início do século VII, quando relatos escritos descrevem uma onda súbita de mortalidade.
Peste bubônica. Foto: Content Providers(s): CDC – Centers for Disease Control and Prevention’s Public Health Image Library (PHIL) / De en.wikipedia para a wiki Commons., Domínio públicoQual o impacto da descoberta no estudo da evolução das pandemias?
A descoberta no local de Jerash oferece um raro vislumbre de como as sociedades antigas responderam a desastres de saúde pública. Jerash era uma das principais cidades do Império Romano do Oriente, um ponto de comércio documentado com estruturas magníficas.
Entretanto, o fato de um espaço construído para entretenimento e orgulho cívico ter se tornado um cemitério durante uma emergência revela como os centros urbanos provavelmente foram sobrecarregados.
Um estudo complementar, também liderado pelas universidades do Sul da Florida e Atlântica da Florida, coloca a descoberta de Jerash em um contexto evolutivo mais amplo.
Ao analisar centenas de genomas antigos e modernos de Y. pestis — incluindo aqueles recém-recuperados de Jerash — os pesquisadores mostraram que a bactéria havia estado em circulação entre populações humanas por milênios antes do surto de Justiniano.
Como a análise genética ajuda a entender futuras pandemias?
Os pesquisadores descobriram que pandemias posteriores, desde a Peste Negra do século XIV até casos ainda aparecendo hoje, não descendem de uma única linhagem ancestral.
Em vez disso, surgiram de forma independente e repetida a partir de reservatórios animais antiquados, irrompendo em múltiplas ondas através de diferentes regiões e épocas.
Esse padrão repetido contrasta fortemente com a pandemia de SARS-CoV-2 (COVID-19), que teve origem em um único evento de salto de espécie e evoluiu principalmente através da transmissão entre humanos.
Os achados emblemáticos reformulam a compreensão de como as pandemias emergem, reaparecem e se espalham, além de por que permanecem uma característica persistente da civilização humana.
A pesquisa destaca que as pandemias não são catástrofes históricas singulares, mas eventos biológicos repetidos impulsionados pela congregação humana, mobilidade e mudança ambiental — temas que continuam relevantes hoje.
Este estudo fornece evidências que aprofundam a compreensão das pandemias e pode auxiliar na elaboração de estratégias para enfrentamento de futuros surtos.
Fonte: Science Daily /// O Antagonista


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