FILME: Em 1973, filme ‘No Mundo de 2020’ imaginou o mundo de 2022 e acertou muito


Longa com Charlton Heston aponta escassez de alimentos frescos e aumento de desabrigados

Porto Velho, RO - O ano é 2022. Nosso planeta superpovoado está passando por mudanças climáticas catastróficas. As megacorporações têm poder excessivo sobre os governos. A vida boa é um luxo que apenas o 1% mais rico consegue comprar.

Pode parecer uma olhada nas manchetes dos jornais de hoje, mas essas previsões foram feitas meio século atrás no filme distópico No Mundo de 2020, que está disponível no serviço da Apple TV.

Centenas de filmes tentaram enxergar o futuro; a maioria não fez um trabalho muito bom. Corrida contra o Futuro (1992) imaginou assassinos viajantes no tempo em 2009. E o fracasso de bilheteria The Postman - O Mensageiro (1997) previu que 2013 seria pós-apocalíptico.

Mas cerca de cinquenta anos atrás, os prognósticos de Hollywood pareciam bem sintonizados com a realidade.

Em 1972, a franquia Planeta dos Macacos lançou seu quarto filme, Conquista do Planeta dos Macacos. Ambientado no ano de 1991, o longa imagina a Terra nas garras de uma pandemia letal. Faça suas próprias comparações com AIDS, SARS, e zika e covid.

Mas No Mundo de 2020, lançado em 1973 e baseado no romance de Harry Harrison, foi presciente de um jeito ainda mais assustador. O filme se passa no distante futuro de 2022. É estrelado por Charlton Heston – conhecido por interpretar Moisés em Os Dez Mandamentos (1956) e por ser cinco vezes presidente da Associação Nacional do Rifle – no papel de Thorn, detetive da polícia de Nova York. E o planeta que ele habita se parece muito com o nosso.

A trama gira em torno de uma investigação de assassinato. Mas vamos examinar quais das previsões do filme se tornaram realidade agora que alcançamos o ano de seu cenário.
Comida sintética

Desde Os Jetsons (1962), filmes e programas de TV vêm mostrando os seres humanos substituindo refeições por pílulas nutricionais. Em No Mundo de 2020, esta é uma mudança que fazemos por necessidade: o consumo excessivo fez com que os produtos frescos ficassem escassos. Um pé de alface, dois tomates e um alho-poró custam US $ 279, e uma fatia de carne bovina é o luxo supremo.

O público em geral é obrigado a viver de produtos da corporação Soylent, cujos alimentos contêm “um concentrado de vegetais de alta energia” – e são descartados por um cliente mais idoso como “uma gororoba sem gosto nem cheiro”. Sua mais recente refeição artificial é a Soja Verde, um “alimento milagroso de plâncton de alta energia coletado dos oceanos do mundo”.

Essa Soja Verde acabou se provando popular o suficiente para ser racionada a um único dia de venda por semana, mas, como Thorn descobre, não é o que parece. (Não vamos estragar o final, mas se você sabe alguma coisa sobre o filme, provavelmente é a horrível revelação sobre a Soja Verde).

Esse desfecho terrível não impediu que em 2013 se fizesse uma campanha de financiamento coletivo para a Soylent da vida real, empresa do engenheiro de software Rob Rhinehart. Hoje os alimentos da empresa estão disponíveis em pó e em barra.

Eles “atendem aos padrões da agência sanitária dos Estados Unidos em uma série de critérios para alimentos saudáveis”, escreveu o site de tecnologia Ars Technica em 2014. A Soylent Nutrition interrompeu temporariamente as vendas de seus pós e barras em 2016, após relatos de problemas gastrointestinais terem sido associados ao uso de produtos de farinha feita de algas – não exatamente plâncton, mas quase.

Hoje seus produtos estão disponíveis para compra online e em redes como Walmart e 7-Eleven, mas ainda não geraram o mesmo tumulto que seu homônimo no filme.

Cena do filme 'No Mundo de 2020', de Richard Fleischer, com Charlton Heston, que previu um mundo em 2022 muito próximo ao que estamos vivendo. Foto: MGM Studios
Superpopulação

No Mundo de 2020 começa com fotos que mostram como os americanos modernos foram evoluindo de colonos vestidos de sobrecasaca para pescadores, fazendeiros e, enfim, os primeiros habitantes das cidades. A apresentação de slides então se transforma numa agitação de cidades com calçadas lotadas, engarrafamentos envoltos em fumaça e até mesmo “empurradores profissionais” enfiando os passageiros nos trens do metrô.

Os escritos na tela nos dizem que a população da cidade de Nova York é de 40 milhões de pessoas. O exasperado Thorn a certa altura comenta: “Tem dois milhões de caras desempregados só em Manhattan – e só de olho no meu emprego!”

Existem várias semelhanças entre o universo do filme e a vida na Big Apple de hoje. Manhattan viu um aumento do número de desabrigados em junho do ano passado, quando a cidade tentou diminuir a aglomeração nos abrigos. E, conforme mostrado na tela, a polícia pode ser eficiente (ou ter excesso de zelo, dependendo da sua perspectiva) quando se trata enfrentar os manifestantes. (As previsões de criminalidade galopante, felizmente, não se concretizaram: Thorn observa que a cidade registra 137 homicídios por dia, enquanto o relatório CompStat do NYPD lista cinco de 27 de dezembro de 2021 a 2 de janeiro).

Os super-ricos, no entanto, estão ainda melhor na realidade do que no filme, onde parecem condenados a viver nos apartamentos do Chelsea West se quiserem ficar longe das massas. Cada porta no luxuoso bloco da torre é automatizada, o mordomo da cobertura está vestido em um rosa exuberante e o auge do glamour é uma ducha fresca. Nada das adegas privadas e dos pórticos ostentosos que você encontra hoje em prédios como o 15 Central Park West.
Mudanças climáticas

Talvez influenciado pela onda de calor de 1972 e pela primeira crise do petróleo no início dos anos 1970, No Mundo de 2020 imagina um futuro sufocante onde a temperatura nunca cai abaixo dos 32 graus. A margarina estraga na geladeira e paira no ar uma névoa nefasta parecida com históricas névoas fatais de Londres, o que obriga que as últimas árvores remanescentes da cidade sejam protegidas sob uma tenda. Não fica claro se essas calamidades são culpa da humanidade ou de um desastre natural, mas no romance original está implícito que é a primeira opção.

Para Thorn, essa existência cáustica é normal – afinal de contas, ele cresceu no século 21 – mas ele ainda fica hipnotizado quando descobre o sabonete fresco de uma vítima de assassinato muito rica e um ar-condicionado que pode deixar o ambiente “frio como o inverno costumava ser”.

Na realidade, é claro, a catástrofe climática não se limita às cidades. Incêndios florestais recentemente assolaram o Colorado, deixando centenas de desabrigados, enquanto uma grande parte do oeste, do Novo México a Idaho, está nas garras de uma mega seca.

A Grã-Bretanha acabou de registrar a véspera de Ano Novo mais quente da história. Novembro passado viu Delhi entrar em lockdown temporário – não por causa da covid, mas para mitigar a notória poluição do ar da capital indiana.

Morte assistida

Entre a escassez de alimentos, a desigualdade abissal, as temperaturas opressivas e as escadarias cheias de moradores de rua, a vida em No Mundo de 2020 não é moleza. Talvez tenha sido por isso que as autoridades do filme legalizaram a morte assistida.

Uma cena mostra viúvas recebendo “o auxílio-morte”, o que implica que sua família será recompensada se você desistir. É um momento que chama a atenção de Sol Roth (Edward G. Robinson), que vai até uma clínica onde é recebido por uma assistente glamorosa. Ela lhe pede para escolher sua cor e trilha sonora favoritas, então ele toma um gole de remédio e é colocado na cama enquanto um funcionário aperta dois botões num painel de controle.

Uma TV do tamanho da parede exibe uma montagem de imagens tranquilizadoras (veados pastando, rios correndo, sóis nascendo) enquanto o personagem troca um terno "Eu te amo” com Thorn. (O próprio Robinson morreria doze dias após o término das filmagens).

Assunto polêmico na época, a morte assistida hoje é legal no Canadá, Colômbia, Austrália e partes da Europa. Em 2018, 142 pessoas viajaram da Alemanha, França e Grã-Bretanha para as instalações Dignitas, na Suíça, para fazer uso da política de suicídio assistido por médico do país, a qual não estabelece uma idade mínima, requisito de diagnóstico ou sintomas específicos.
Tempo de tela

Enquanto Thorn gasta seu tempo livre saboreando feijão, alface e maçãs que ele roubou de sua última cena de crime, a elite de No Mundo de 2020 tem uma maneira mais moderna de se descontrair: videogames. No luxuoso apartamento de um membro do conselho da Soylent, um cômodo elegante abriga o Computer Space, que na vida real de 1971 se tornou o primeiro jogo de fliperama operado por moedas.

Graças aos céus, o 2022 em que nos encontramos hoje oferece uma ampla gama de escapismo de alta tecnologia. Mas será que nosso mundo é tão sombrio quanto o filme previu 49 anos atrás?

No Mundo de 2020 pode não ser a visão mais enervante do amanhã – essa honra será para sempre de Threads (1984), de Mick Jackson, e seu relato definitivo de um holocausto nuclear – mas é o filme que adivinhou aquilo no que nos tornaríamos se continuássemos a nos guiar pela ganância. Ao contrário de Threads, conseguimos não apertar o grande botão vermelho. Estamos felizes só de continuar pressionando sem parar os botões de nossos dispositivos digitais.

Fonte: O ESTADÃO / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem